
Deixai que eu beba do teu néctar
Faças da minha alma pedaço da tua
Esposas-me com as alianças etéreas
Sacrificas-me com teu punhal do amor
A escuridão noturna que do céu foge ao amanhecer
Correu comigo a tua procura pelos quatro cantos
Revelou a ti os mais profundos e obscuros sentimentos
Que herdei das mais misteriosas criaturas...
Esse é o meu tempo
Que voa como os corvos no céu
Expressivas ondas de prazer e dor me dominam
As minhas lágrimas salgaram os teus lábios
Quero muito mais que um beijo
Uma vida inteira junto a tua saliva
Transformei-me em criado do meu amor
Sou servo, escravo dessa flor que sobrevirá ao outono.
Lírios de cemitério
Lampírios que me guiam nessa viagem sem volta
Do leito ao caixão; da capela ao túmulo.
Da vida o cansaço; da morte o acúmulo.
Foram inúmeras noites a tua espera
O quanto dura uma alma para se decompor
Agradeço-te por ser minha prometida
Nesse funesto himeneu apaixonado
Nossas virtudes e defeitos
Conjugam nossas vidas inerentes
Eu amo,
Tu choras,
Ela espera...
Nós morremos.
izaú Melo

Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à-toa. Basbaques escutam, saem. E os autores resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-se como as mulheres do Beco da Lama.
Trecho do livro Angústia
de Graciliano Ramos
Nenhum outro lugar sobre a face da terra
Manifesta tantos sentimentos extremos como os aeroportos
Só quem viu um amigo ou um amor chegar ou ir sabe o que isso significa.
O ser humano geralmente chora por dois motivos, tristeza ou felicidade em excesso.
Reações espontâneas do corpo fruto de sentimentos que temos.
Sentimentos são peregrinos vagando em terras errantes
São pedaços dos outros hospedados em nós
Somos seus hospedeiros e eles manifestam vontades próprias
Não decidimos de quem gostar, quem nos fará sofrer ou quem irá nos amar.
Salas de desembarque são como clínicas de parto, fim da aula, fim do expediente de trabalho.
Como às seis horas, as sextas feiras à tarde,
Salas de desembarque são semelhantes aos presentes paternos, sempre sabíamos o que era e mesmo assim nos causavam uma surpresa agradável.
Geralmente muitos abraços e ou beijos, e o peso da leveza se converte na leveza do peso, em fazer questão de levar as malas...
É o recomeço, a happy hour, o prólogo para longas e agradáveis conversas, que começam no carro e terminam nas madrugadas de uma sala ou quarto, vencidos pelo cansaço.
Porém
Sala de embarque são como necrotérios, velórios, cemitérios...
Quem parte leva saudades
Quem fica, fica cheio do vazio.
Do gosto amargo de ter que voltar sozinho
Onde as coisas e os lugares reportam os momentos agradáveis compartilhados com quem partiu.
Como as boas qualidades que quem fica sempre comenta nos velórios.
As malas, desta vez se vão e o peso, agora ausente se torna uma leveza mais incomoda e pesada ainda.
Depois de cruzar a porta da sala de embarque, tudo se transforma em saudades, até as brigas...
É o verão que se tornou inverno
Era o breve que se transformou no eterno...
Por isso sempre se despeça com sinceridade, peça perdão, perdoe, confesse os seus sentimentos, pois quem vai nunca pode dar a certeza que precisamos de que irá voltar...
em memória de Emily lima, com amor
Izaú Melo



